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Viajei. Fiquei longe de casa por seis semanas. Voltei: o vizinho da frente mutilou seis árvores.
Transformou minhas janelas pintadas com o céu colorido das estações em um deserto azul de ventos e nuvens irreconhecíveis. Podou tudo.
Tudo ele pode. O terreno é dele; as árvores são dele, os galhos e as folhas eram dele. Só a vista e os sonhos eram meus.
As folhas mudavam de cor denunciando a agem do tempo e embalavam meus textos: as do alto anunciavam chuvas, as do meio dançavam ao sabor dos ventos e as de baixo se deixavam tocar. Em dias de sol ofereciam sombra e murmuravam segredos.
Dignas e belas no alto, caídas emprestavam cores e alma aos aplainados caminhos de pedra (da razão rasteira), e sentimentos ao meu cantar.
Foram-se as folhas. Ficaram os troncos broncos de braços desproporcionais, incapazes de um abraço. Incapazes de um verso.
Viajei, não vi o gesto. Perdi a vista. Os sonhos ainda são meus.