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Cultura e entretenimento 1f3218

O gato de M. 4r5e4e

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Conto

Quando comecei a frequentar a casa de M., ei a conviver com uma colônia de gatos, eles e um vira-lata enorme que derrubava tudo por onde asse. De vez em quando o cachorrão ultraava todos os limites e decapitava com os dentes um gatinho recém-nascido.

Quando as degolas tingiam o chão de vermelho, M. acendia um cigarro de maconha e, dando andamento ao que se parecia ser um ritual, recolhia os despojos com uma pá, enterrava-os no pátio, dizia algumas palavras em silêncio e, então, estirada em uma rede, me convidava para balançar com ela, ouvindo o mar.

Com o tempo comecei a me sentir cada vez mais incomodado. Além da tolerância de M. com os atos criminosos do cachorrão, um dos gatos me incomodava. Em todos os cômodos eu me deparava com um tufo laranja do qual saiam bigodes. Porta-retratos e mais porta-retratos por todo o canto, às vezes em pares, até mesmo no esforço de paz na toalete.

Sempre fui cismado, mas a onipresença daquele felino em particular praticamente exigia uma explicação. Um dia, claro, puxei pelo assunto.

– Que gato é esse?

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– Qual deles? – ela respondeu, antes de perceber que eu apontava para um porta-retrato na sala. Ao se dar conta, respondeu:

– Não quero falar disso agora.

M. foi seca. Mais seca que a picada de insulina que acabara de se aplicar, fazendo emergir no braço um ponto de sangue. Para alguém com altas taxas de açúcar no sangue, ela não era exatamente uma pessoa doce, como, por uma série de outros sinais, eu vinha reparando. Por exemplo, se eu apagasse um cigarro no cinzeiro, logo ela o limpava e devolvia ao lugar. Não a qualquer lugar, mas ao de origem – imaculado. Quando eu deixava o banheiro, em seguida ela o ocupava, reclamando se eu fazia pipi sem levantar a tampa do vaso sanitário, se esquecia de guardar a escova de dentes no armário ou se não fechava a torneira com força suficiente para evitar desperdícios de água.

Por coisas assim foi que, em uma noite, acomodei-me melhor no sofá quando M., sem querer, derrubou uma taça cheia de vinho, sem reagir à nódoa vermelha se infiltrando e espalhando pelo tapete.

– Outro dia você perguntou do Ferrugem…

Ela havia dito essas palavras um pouco antes de derrubar a taça.

– Opa! (erguendo para ela a taça do chão). Ferrugem?

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– O gato que tenho nas fotos.

– Escuta. Não é melhor limpar o tapete antes?

– Amanhã eu limpo – disse, deitando a cabeça no sofá; estirando e relaxando o corpo; displicentemente livrando-se dos sapatos com os pés.

– A renúncia é a forma mais sublime de amor – divagou. –

A ilha de Florianópolis é uma cidade ótima para manter animais domésticos, ainda mais em casa de praia, onde ela vivia, onde vivera Ferrugem, cujo destino mudou após um telefonema no qual, do outro lado da linha, a interlocutor fez uma proposta, segundo ela, irrecusável.

– Abriu uma vaga de correspondente do Correio Braziliense em São Paulo. Eu não gosto nada de selvas de pedra, gosto é de natureza, tato quanto gosto de animais. Foi uma decisão bem difícil, e se tornou ainda mais difícil quando concluí que não estava disposta a encerrar o Ferrugem em apartamento, ainda mais sozinho o dia todo. Essa maldade, eu não faria.

Resumindo: antes de se mudar para a capital paulista, em acordo com a proprietária de uma clínica veterinária, M. e sua amiga colocaram o gato para dormir para sempre com uma injeção.

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No dia seguinte à revelação, eu a vi agachada, limpando o tapete. Mas a mancha permaneceu, na forma de um mapa. Não entendi bem, mas, após essa confissão, M. mudou.

Em vez de lavar e polir cinzeiros com sofreguidão, ou a contemplar minhas baganas nadando nas cinzas como a visão do poente. Parou de fiscalizar o banheiro. Uma sadia desarrumação ou a triunfar sobre a solenidade doméstica. Começou então a procissão de presentes.

Sem que eu nada fizesse para merecê-los, ela me entupia de pacotes embalados em bonitos papéis dourados e laços em tons de vermelho: um binóculo de antiquário num dia, um par de sapatos e um livro no outro e assim por diante. Um dia me presenteou com um porta-retrato de mim mesmo. M. o pousou no criado do quarto, entre instantâneos do Ferrugem.

Chegou então uma noite em que, por causa de um filme que ela queria ver e eu não, um mal-estar feito de silêncio se instalou entre nós. Quando ela dormiu, pensei em juntar minhas coisas e fechar a porta da rua atrás de mim. O frio lá fora me fez desistir.

Naquela noite dormi pensando nas seringas e agulhas que todo dia despencavam do armário do banheiro de M. e me senti a coragem em pessoa.

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Jornalista e escritor. Editor do Amigos de Pelotas. Ex Senado, MEC e Correio Braziliense. Foi editor-executivo da Agência de Notícias dos Direitos da Infância (Andi). Atuou como consultor da Unesco e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Uma vez ganhador do Prêmio Esso de Jornalismo, é autor dos livros Onde tudo isso vai parar e O fator animal, publicados pela Editora Lumina, de Porto Alegre. Em São Paulo, foi editor free-lancer na Editora Abril.

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Brasil e mundo 3m3y11

Antes de Gaga, Madonna já havia aprontado no Rio b4o68

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Em seu show no Rio, em maio de 2024, Madonna exibiu numa tela ao fundo do palco imagens de ícones culturais, entre eles Che Guevara e Frida Kahlo. Foi surpreendente que o tenha feito, afinal, ela se apresenta como defensora dos direitos das minorias, inclusive da Queer, como faz Gaga, minoria que se fez maioria em ambos os shows.

Na ocasião, Madonna soou mais inconsequente que Gaga com seu “Manifesto do Caos”.

Os livros contam que o governo cubano, do qual Che fez parte, perseguia homossexuais, chegando a fuzilá-los por isso. Por quê? Porque os considerava hedonistas — indivíduos de natureza subversiva ao regime de exceção. Por serem, para eles, incapazes de controlar seus ardores sensuais e, por conseguinte, de se enquadrar em um regime em que a liberdade não tinha lugar, muito menos de fala.

Já Frida foi amante de Trotsky. E, depois deste ser assassinado no exílio a mando de Stálin, a artista ainda teve a pachorra de pintar um quadro com o rosto de Stálin, exposto até hoje em sua casa-museu, para iração de boquiabertos turistas bem informados sobre os fatos.

Madonna levou R$ 17 milhões do sistema capitalista por um show de um par de horas em que, literalmente, performou. Sem esforço, fingiu que cantava. Playback.

Dizem que artistas, por natureza, são “ingovernáveis”. A visão que eles teriam de vida seria mais importante do que a vida, do que a matéria. Pois há artistas e artistas.

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Madonna é dessas sumidades que a gente não sabe, de fato, o que pensa. Apenas intui, por projeção. Tente lembrar de alguma fala substancial dela. Não lembramos, porque vive da imagem que criou. Vende uma imagem que, no fundo, talvez nem corresponda ao que ela é de verdade.

No fim da trajetória, depois de ganhar a vida, artistas costumam surpreender o público, mostrando sua verdadeira face em biografias. Pelo desconforto de partir com uma máscara mortuária falsa.

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Cultura e entretenimento 1f3218

O perigo das Gagas da vida 1n4w28

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Ajoelhado na calçada, à moda dos muçulmanos voltados para Meca, porém usando minissaia e rumorosos saltos vermelhos, um homem vestido de mulher berrava com desespero, na tarde de sexta 2, para uma janela vazia do Copacabana Palace, no Rio. Esgarçando-se na reiteração, expelia em golfos: “Aparece, Gagaaa. Gaaaagaaaaa”. Projetava-se à frente ao gritar, recuava em busca de fôlego e voltava a projetar-se.

Como a cantora não deu os ares à janela do hotel, o rapaz, tal qual uma atriz de novela mexicana, a sombra e o rímel escorrendo pelas bochechas, chorou o que pode. Estava cercado por uma multidão que, assim como ele, queria porque queria fincar os olhos na mutante Lady Gaga, uma mistura de mil faces a partir da fusão de Madonna com Maria Alcina, antes de seu show. No país que ama debochar, a cena viralizou.

Multidão muito maior ironizou o drama. Memes correram por todo lado para denunciar o grande número de desempregados no Brasil. Gente com tempo de sobra para chorar, porém pelas razões erradas.

Ocorre que muitos dos presentes à manifestação, como o atormentado rapaz, veem em Gaga um ícone Queer. Uma rainha da comunidade LGBTQIA+, representante global das causas do amor sem distinção, como a pop estimula em seu “Manifesto do Caos”, lido por ela no show. Nele, Gaga prega a “importância da expressão inabalável da própria identidade, mesmo que isso signifique viver em estado de caos interno”. Um manifesto assim, mais do que inconsequente, é temerário.

Como assim caos interior?

Tomado ao pé da letra por destinatários confusos, um manifesto desses pode ser mortificante. Afinal, viver a própria identidade não significa viver sem freios, mas sim encontrar um meio termo entre o desejo e a realidade. Justamente para evitar o caos. Logo, o manifesto é, isso sim, assustador — por haver (sempre há) tantas pessoas suscetíveis de embarcar nessas canoas de alto risco, cheias de remendos destinados a cobrir furos da embarcação. Pobres dos ageiros que, cegos por influência de ídolos de ocasião, avançam pelo lago em condições tão incertas.

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A idolatria… ela é mais antiga do que fazer pipi pra frente e, ao menos no caso dos homens, ainda de pé. Ultimamente as coisas andam um tanto confusas nesse quesito, mas ao menos a adoração se mantém intacta, assim como a veneta dos gozadores, para quem o humor repõe as coisas em proporção, ou seja, em seu devido lugar.

Todos temos cotas de iração por artistas, mas à veneração, eis a questão, se entregam os vulneráveis. O que esses buscam, mais do que a própria vida, é um reflexo (uma sombra?) de suas identidades. Uma projeção material da pessoa que gostariam de ser, não fossem o que são. É aí que mora, num duplex de cobertura, o perigo. O rapaz pensa que Gaga é como ele, só que não.

Não lembro quem disse que aqui é um vale de lágrimas. Mas o é de fato, bem como é um fato que artistas, como políticos, são depositários das nossas esperanças, mesmo que atuem na mais antiga das profissões, anterior à prostituição — a representação —, o primeiro requisito para sobreviver em sociedade, quando não ficar rico, e sem necessariamente excluir, ainda que camuflada, a segunda profissão.

É de se imaginar o rapaz voltando para casa frustrado. É de presumi-lo no sofá, fazendo um minuto de silêncio.

Mas depois se reerguendo.

Não há de ser nada. Amanhã Gaga vai arrasaaar.

Gagaaaaaa.

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